Fazer parte de um museu
22 anos, vozes, fios
Em dezembro do ano passado, eu fui convidado a contar a história do Nonada Jornalismo para o acervo Galeria de Vozes, do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, aqui do Rio Grande do Sul. Conversei por quase duas horas com a Estela Machado Winter Galmarino, historiadora responsável pelo setor, que pegou meu depoimento a partir de algumas perguntas sobre a criação, os diferentes processos de trabalho, projetos e pontos importantes dessa trajetória, que no próximo setembro completa 16 anos. Exemplares das revistas Nonada e o nosso livro entraram para o acervo da instituição.
Já escrevi sobre isso algumas vezes, mas contar essa história sempre me ajuda a refletir sobre a minha profissão e sobre o próprio fazer do Nonada: o que estamos conseguindo alcançar no campo do jornalismo cultural e, mais recentemente, também no campo da cultura e da educação, como uma organização da sociedade civil, com os nossos projetos que misturam essas áreas.
Para mim, sobretudo, é emocionante ter o Nonada lá no Museu da Comunicação do Rio Grande do Sul. E ter a oportunidade de narrar e ser uma das pessoas responsáveis por isso é incrível. O Rafael com 22 anos começando aquele site independente de jornalismo cultural nem pensava nisso.
O jornalismo se faz no dia a dia, na troca, no trabalho constante. E é cruel, se você parar para pensar, porque a importância dessa profissão só existe enquanto continua acontecendo. Por isso, uma organização que visa trabalhar com jornalismo não pode parar; não pode perder qualidade; não pode ficar obsoleta; de certa forma, deve continuamente desafiar o tempo, sabendo que sempre vai perder, de um modo ou outro. Vai deixar rastros adaptados e motivados pelo espírito de sua época: as reportagens, as críticas, as notícias, os perfis. Todos eles são provas de derrotas contra o tempo. Mas derrotas vitoriosas nesse embate eterno.
Nem era isso que eu queria comentar, eu só queria evidenciar o trabalho do museu e da Galeria de Vozes. Esse acervo de vozes, baseado na História Oral (metodologia fantástica, aliás) reúne depoimentos com profissionais da comunicação e personalidades da cultura desde a década de 1970. Pode ser um bom lugar para pesquisas, pois o acervo é aberto a quem tiver interesse, só é preciso fazer um pedido para ter acesso aos arquivos completos. Faço aqui uma listinha de entrevistas que colhi rapidamente, há muitas outras:
- O depoimento de Odilon Lopez é uma oportunidade rara de ouvir um dos pioneiros do cinema negro brasileiro refletindo sobre a história do audiovisual no país e sobre os bastidores técnicos da televisão e do cinema no Rio Grande do Sul
- O depoimento de Gilberto Gil reúne memórias, reflexões políticas e pensamentos sobre cultura, identidade e comunicação em uma conversa que atravessa diferentes momentos da trajetória do artista. Ao revisitar experiências pessoais e históricas, Gil oferece um olhar sensível sobre o papel da arte na formação do Brasil contemporâneo, tornando a escuta especialmente rica para quem se interessa por música, política cultural e memória brasileira.
- O depoimento de Mario Quintana revela um escritor de fala delicada, irônica e profundamente observadora, refletindo sobre literatura, cotidiano e memória com o mesmo tom intimista presente em sua obra. A entrevista é também um registro raro da voz e da personalidade do poeta gaúcho, permitindo perceber como humor, melancolia e simplicidade conviviam em sua maneira de enxergar o mundo.
- O depoimento de Rosina Duarte recupera memórias da comunicação popular e alternativa no Rio Grande do Sul, atravessando temas como direitos humanos, cidadania e imprensa independente. Uma das idealizadoras e criadoras do jornal Boca de Rua, publicação produzida por pessoas em situação de rua em Porto Alegre, Rosina compartilha experiências que ajudam a compreender a potência política e humana de iniciativas construídas à margem da mídia tradicional.
E há muitos outros.


Vida longa!