Meu avô impossível
Um pica-pau biruta em technicolor
(Obs: Esse texto foi produzido como uma primeira tentativa de ensaio para uma cadeira de Não-Ficção do mestrado, provavelmente sofrerá alterações e edições futuras). Segue:
A primeira vez que eu vi alguém morto foi o meu avô. Ele infartou em casa e entrou em coma no hospital. Ficou um pouco mais de uma semana assim e não resistiu. Acho que fui o único da família a não visitá-lo. Quando ele faleceu, não sei porquê, eu resolvi ir junto para reconhecer o corpo. Meu avô não parecia ele, e sim uma espécie de boneco inchado, o rosto deformado. Sensação semelhante eu tive mais tarde, no velório, quando ele já estava “arrumado”, maquiado no caixão. Quase um estranho. Em algum momento da cerimônia trouxeram a boina que ele costumava usar. De cor cinzenta, já bem gasta pelo tempo. Foi apenas nessa hora que eu realmente me emocionei, como se aquela peça abrisse uma caixa de lembranças. A partir daquele objeto eu o reconhecia novamente. Mas por muito tempo fiquei pensando: por que eu só chorei quando depositaram a boina junto ao corpo do meu avô no caixão?
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É 2023, estou em Campinas à trabalho. Em um fim de semana vamos para a capital a fim de visitar a 35º Bienal de São Paulo. Um grande pavilhão em que é preciso passar de dois a três dias para ver com zelo necessário. Não temos esse tempo todo. Mas me demoro em uma instalação gigante com vários retratos de pessoas quilombolas, abaixo deles, fones de ouvido. É preciso atenção para ouvir todas essas histórias. A oralidade é muito importante para essas comunidades, é um dos modos como seus saberes são construídos e repassados. No meu fazer jornalístico, costumeiramente estou com as vozes das fontes na cabeça quando estou no processo de escrever uma reportagem ou um perfil. Mas a maior parte do tempo eu escuto com cuidado mesmo o que elas estão falando? No outro lado do pavilhão, vejo uma nova instalação e uma frase me atinge: “Um evento sem um poema é um evento que nunca aconteceu”, provérbio Amazigh, um conjunto de povos indígenas do norte da África, que habitam a região há mais de 6.000 anos. Essa mesma montagem trazia um mural com uma placa convidando as pessoas a sentarem e conversarem.
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Por muito tempo fiquei pensando que devia alguma coisa à memória do meu avô. Nós morávamos no mesmo terreno, em casas diferentes. Crescemos muitos próximos, mas nunca tivemos uma grande intimidade. Me sobrou compreender a questão da boina. Comecei a investigar e escrever minhas lembranças sobre ele. Passei a entender aquele objeto como um vestígio que o representava. Se fosse escrever um perfil sobre o meu avô ela poderia ser uma peça fundamental, talvez um fio condutor de uma possível descrição. Mas também poderia ser um traço de outro tempo, da época que ele viveu, quando ele era mais jovem. Não o conheci assim. O passado realmente nunca vai embora, porque o tempo psicológico é diferente do tempo cronológico, este é ditado pelas horas inventadas pela humanidade para dar algum sentido também narrativo ao que vivemos; aquele não, pois trabalha a um nível muito maior de intensidade, de marcas. Meu avô era uma pessoa de outra época, cujos marcadores continuam por aqui também.
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Nas danças, coreografias e diversas expressões artísticas e sociais, o tempo assume, na obra da pesquisadora e escritora Leda Maria Martins, um caráter reversível. Em vez de seguir apenas em linha reta, ele também se movimenta por “voltejos” e espirais, termos recorrentes em sua reflexão. A autora conceitua o tempo espiralar como uma temporalidade que avança e retorna ao mesmo tempo, preservando o passado dentro do presente. Nesse entendimento, passado e futuro não possuem fronteiras rígidas ou definitivas. Essa percepção de um tempo marcado por dobras e retornos permite ir além da lógica linear de causa e consequência, que compreende o presente apenas como resultado direto de acontecimentos passados. Assisti à uma apresentação da Velha Guarda da escola de Samba Mangueira, em Porto Alegre, durante um festival Unimúsica. Uma das canções apresentadas chamava-se Meninos da Mangueira tem uma letra que vai assim: “E onde é que se junta o passado, o futuro e o presente?/ Onde o samba é permanente, na Mangueira, minha gente”.
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Lembro do meu avô sentado no degrau em frente ao portão de casa. Parado, às vezes passava horas lá, observando o movimento da rua, veja só, uma rua sem saída. Mas, quando penso nele agora, o que volta é o modo como cortava a bergamota. Ele apoiava a fruta na palma da mão, girava um pouco, escolhendo por onde começar. A faca vinha depois, sem pressa, entrando de leve na casca, deslizando. A lâmina corria rente à pele laranja bronzeada. Meu avô não atravessava a fruta de uma vez, ia contornando, desenhando a circunferência com paciência, como quem entalha madeira. A casca cedia aos poucos, abrindo-se em duas metades quase perfeitas. Então vinham os dedos. Grossos, já marcados pelo tempo, mas surpreendentemente delicados. Ele mergulhava nos gomos, e ia pinçando as sementes uma a uma. E as lançava ali mesmo na calçada. Não importava o tempo, o clima, o dia da semana. Depois do almoço, lá estava ele. Sempre.
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Gosto muito de fragmentos, textos curtos, aforismos. Alguns deles têm me marcado nas minhas últimas leituras, como este de Leonard Woolf: “Se quisermos tentar registrar uma vida com fidelidade, devemos procurar incluir nesse registro algo da descontinuidade desordenada que a torna tão absurda, imprevisível, suportável”. E este também de Walter Benjamin: “O trabalho em uma boa prosa tem três degraus: um musical, em que ela é composta, um arquitetônico, em que ela é construída, e, enfim, um têxtil, em que ela é tecida”.
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O que me lembra aquele texto clássico do Pierre Bourdieu, a Ilusão Biográfica. Quando o li me dei conta o quanto estamos acostumados a pensar a vida como uma sequência de acontecimentos que fazem sentido, como se existisse uma linha que liga o começo ao fim. Mas Bourdieu aponta que essa coerência não está na vida em si, ela é produzida quando a gente narra. É nessa procura da lógica entre quem conta e quem escreve ou registra que essa estrutura ocorre. Mesmo quando a vida, na prática, é feita de rupturas, desvios e descontinuidades. Bourdieu também questiona a própria ideia de identidade como algo estável. A gente costuma pensar o indivíduo como uma unidade contínua, mas, na realidade, ele é atravessado por diferentes experiências, ocupa posições distintas ao longo do tempo e se transforma conforme os contextos. Por isso, ele propõe deslocar o olhar. Em vez de pensar a vida como uma história, ele sugere entendê-la como uma trajetória não apenas no sentido narrativo, mas como uma série de posições ocupadas por um indivíduo dentro de um espaço social.
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Muitas vezes quando estou no processo de escrever sobre alguém fico pensando se é realmente possível conhecer uma pessoa, ou o contexto social em que ela está inserida. Na verdade, nem penso mais nisso, porque é óbvio que nunca se conhece alguém ou um lugar por completo. Agora é mais algo do tipo: a forma como eu vou narrar uma parte da trajetória dessa pessoa é justa com ela? Ou deveria ser justa com a visão que tenho dela? Posso escrever que meu avô cortava a bergamota de tal modo, mesmo não lembrando desse detalhe exatamente? Como posso dizer que ele tinha dedos delicados se passou muitos anos trabalhando como linotipista no jornal Diário de Notícias e depois no Correio do Povo na primeira metade do século XX em Porto Alegre? Essa profissão extinta da área gráfica e que precedeu os diagramadores atuais. A linotipia revolucionou a imprensa no final do século XIX, porque permitiu que os jornais e livros fossem produzidos em uma velocidade muito mais rápida. Esses profissionais operavam uma máquina de teclados para fundir linhas de metal prontas, agilizando o processo. Era um trabalho muito técnico e que envolvia o manuseio de chumbo fundido formando os textos que iam para o papel. Por ser considerado um trabalho insalubre na época, sempre me contaram que meu avô acabou aposentado cedo, com quarenta e poucos anos. Por isso sempre lembro dele em casa, com as bergamotas e os jornais, guardando todos os recibos das contas que pagava em uma caixinha, gritando que eu ia me “pisar” quando estava correndo no pátio.
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Talvez a forma mais justa de falar sobre meu avô seja me afastar e apenas o descrever em formato de lista:
- Jantava e dormia muito cedo, também acordava muito cedo
- Teve um fusca de cor verde, e seu último carro foi um fiat uno cinza
- Fumou por muito tempo durante a sua vida, mas parou quando o médico deu um ultimato
- Gostava muito de doce, estava sempre com uma balinha no bolso
- Usava sandálias no verão, no inverno usava sandálias com meias
- Tinha os olhos esverdeados e a barriga protuberante
- Adorava assistir ao desenho animado do Pica-Pau
- De vez em quando usava suspensórios
- Gostava de conversar com todo mundo
- Ganhou um prêmio alto na loteria uma vez, daí conseguiu comprar um terreno na praia de Arroio Teixeira
- Tocava violão na juventude e volta e meia o ouvia cantar sambas-canções antigos
- Nasceu em 9 de dezembro de 1929
- Teve três filhos, seis netos, 1 bisneto em vida
- Morreu no dia 12 de outubro de 2012
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Carlos Cachaça, o menestrel Mestre Cartola, o bacharel Seu delegado, um dançarino, Faz coisas que aprendeu Com Marcelino
E a velha-guarda Se une aos meninos lá na passarela Abram alas que vem ela A Mangueira toda bela
O trabalho complexo de Leda Maria Martins vem de outras formas de ver o mundo, das cosmologias negras e também dos povos originários, em que o tempo não é uma linha que se rompe. Penso que isso ajuda a entender por que certas memórias não passam. Ou por que certos gestos permanecem. Há algo no corpo que guarda, mesmo quando a gente não sabe exatamente o quê. Como se a experiência não se encerrasse no momento em que acontece, mas seguisse reverberando, sendo retomada, reencenada de outras formas. Quando a Estação Primeira de Mangueira canta Os Meninos da Mangueira, essa ideia aparece: “E onde é que se junta o passado, o futuro e o presente?”. A pergunta não é apenas poética. Ela aponta para um lugar específico, mas também para um modo de existir. O samba, nesse caso, não conta uma história passada. Ele constantemente atualiza conhecimentos. Faz com que essas figuras, como Carlos Cachaça, Cartola, a velha guarda continuem presentes, atuantes, atravessando agora as novas gerações da Escola de Samba.
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No fim, penso que eu deveria começar a investigar o começo, ou seja, o que me levou a querer refletir sobre o meu avô. Sempre fui mais próximo de minha avó na vida, tenho mais lembranças dela. Não sei. Talvez porque ele ainda represente algum mistério, algo que me dá prazer em ficar adivinhando ou investigando sobre. E porque eu também veja assim, de certa forma, o ato de escrever. A graça é apontar possíveis caminhos que só eu poderia tomar. Talvez.
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Lá está o seu Otávio nos altos dos seus setenta anos assistindo desenhos animados em frente à televisão da sala de sua casa em uma manhã de inverno. Dedilhando a bergamota sobre a mesa, espera ansioso pela chegada de seu personagem favorito. Esse desenho lembra um pouco da sua infância, uma vez que foi criado ainda na década de 1940 e, apesar de só ter se popularizado no Brasil nos anos 1980, há algo do humor daquele primeiro Pica-Pau biruta que o faz rir tanto que acaba chamando atenção da sua família. O personagem surgiu com uma personalidade quase anárquica, marcado por um riso estridente e atitudes imprevisíveis, funcionando como um verdadeiro agente do caos. Depois, em suas versões posteriores foram suavizando os seus traços e um pouco do seu comportamento. Otávio preferia o original. Quando fazia alguma de suas picardias, ele quase deixava cair a boina de tanto rir. Mas era uma risada tão intensa e contagiante que todo mundo já sabia que o pica-pau estava passando na televisão. E, então, quando seus netos estavam por perto, se juntavam a ele para assistir aquele pássaro vermelho fazendo bizarrices. Um pica-pau biruta em technicolor.


