Outono/Inverno
ursos
Estava aqui lendo um livro sobre uma mulher que foi atacada por um urso e sobreviveu, em um ponto remoto na Rússia. Ainda não acabei a leitura e ela segue na minha mente, porque não sei se vou conseguir terminar nos próximos dias. A obra é dividida conforme as quatro estações: outono, inverno, primavera, verão. Essa é a ordem. O ataque acontece no outono, o bicho gigante deixa uma marca nessa antropóloga francesa que se perguntava se ela já não esperava por esse encontro há muito tempo. O livro narras seus pensamentos e suas experiências todas advindas da experiência do real como pesquisadora de comunidades tradicionais isoladas em pontos da Rússia. Ela tem certeza que deixou uma marca no animal também. Em algum momento começa a se perguntar se ela não está virando outro ser também, afinal ela parece muito mais próxima daquelas pessoas que estuda, etnograficamente. Um longo processo de cirurgia buco facial, intermináveis internações em hospitais (que talvez sejam mais violentas que o ataque do próprio urso) a fazem questionar muitas vezes qual é seu lugar. E, então, depois de uma melhora no tratamento, ela retorna a Rússia. Aí que eu parei. O nome do livro é ótimo e emula bastante o sentido primordial: Escute as feras. Há uma necessária crueza investigativa no olhar da autora/narradora do livro que treinada pela observação nos carrega por entre a vegetação russa, as caminhadas, a experiência do chão do trabalho de pesquisa. Mas também pelas outras pessoas que povoam a andança, um ponto tão remoto parece ter muito mais vida do que quando volta ao seu país natal, cheio de complexidades burocráticas. Mas nada é visto de forma muito simplória. Não sei, minha ideia não era fazer uma resenha, talvez um comentário prévio empolgado. Descubro a necessária faísca mais uma vez e querendo experimentar a vida, e com isso quero dizer empolgado em estudar novas possibilidades da escrita. Querendo observar o mundo ao meu redor, escutar. Ser parte de uma paisagem.


Gostei muito da tua forma de se referir à história porque sugere ser uma leitura inseparável de um processo interno que o leitor passa a vivenciar junto. Forte. Ainda não chegou a mim este livro, ja havia ouvido recomendações. Tua escrita também me levou a uma referência mais antiga, um filme chamado Dersu Uzala (1975), de Akira Kurosawa. Trata-se da relação entre um soldado/explorador russo e um nativo caçador nômade mongol/tungue. Lindo. Remeteu-me à paisagem que descreveste.
Que interessante! Me deu vontade de procurar e ler.